Como ficar insensível ao drama dos imigrantes?


    Fico muito chocada com os acontecimentos que envolvem a vida dos sírios e outros povos (africanos, americanos), que fogem da fome, da guerra e das desgraças em seus países de origem. Sair de sua pátria é criar um vazio dentro de si próprio. As expectativas não são suficientes para preencher a sensação de perda que a distância da pátria provoca.
   Não há como não relembrar a história da imigração de meus familiares. Sou a quarta geração nascida no Brasil e tenho muito orgulho de ser brasileira. Mas não posso esquecer que, se hoje estou aqui é porque meus antepassados imigraram. Foi também, uma imigração dramática. Havia guerra, muita fome e nenhuma esperança, pobreza geral. Imigrar era para os corajosos que se arriscariam mar adentro, sem saber ao certo o que esperar do outro lado do Atlântico.
   A história registra muitas mortes antes, durante e depois da travessia marítima. Meus familiares vieram da Suíça no veleiro URANIA, em 1818 , dos 437 passageiros, 107 morreram na travessia, 25% dos embarcados não chegaram ao destino (alguns familiares nossos tiveram o mar como última morada), fora outros que morreram de peste, nos portos da Holanda antes do embarque. E ainda ao chegar ao Brasil, as doenças mal curadas, o clima adverso, provocaram novas mortes. Não foi fácil. As embarcações eram frágeis e, na nova terra, nos locais destinados a eles, tudo estava por fazer. Até a mata devia ser derrubada para só, muito depois, plantarem as sementes. Para serem acolhidos dependiam das autoridades locais, tal qual hoje. Eram europeus buscando um futuro mais promissor.
   Agora o movimento é inverso, imigram para a Europa, em busca de novas oportunidades, em embarcações tão precárias como as de 1818. Ao ver os noticiários, parece que a história está se repetindo com o mesmo sofrimento. Se naquele tempo (1818) tudo era incerto, ainda por ser feito, hoje, a tecnologia é enorme. Mas o DESAMOR é o mesmo. Fala alto a ganância.
   Como ficar insensível ao drama dos imigrantes hoje, nós que descendemos dos imigrantes europeus de ontem?

Else Luiza Rausch

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