Perdão versus desculpas


Tenho a impressão de que quando acho que estou pedindo que Deus me perdoe estou muitas vezes (a menos que eu me cuide bastante) pedindo que ele faça algo muito diferente. Não estou pedindo que me perdoe, mas que me desculpe. Porém, existe uma enorme diferença entre perdoar e desculpar. Perdoar significa dizer: “Sim, é verdade que você cometeu tal coisa, mas eu aceito o seu pedido de perdão. Eu jamais cobrarei de você, e tudo entre nós continuará sendo exatamente como era antes”. Porém, quando desculpamos alguém, estamos dizendo: “Vejo que você não teve como evitá-lo ou não quis fazer isso, e não foi realmente culpa sua”. Se não houve culpa real, não há nada a desculpar. Nesse sentido, a desculpa e o perdão são quase opostos. É claro que, em dezenas de casos, seja entre Deus e o homem, seja entre uma pessoa e outra, as coisas muitas vezes se sobrepõem. Parte do que parecia ser pecado à primeira vista, revela-se como não sendo culpa de ninguém e é desculpado; o restinho que sobra é perdoado. [...] Contudo, o que muitas vezes chamamos de “pedir perdão a Deus” não passa, na verdade, de pedir que ele aceite nossas desculpas. O que nos induz a esse erro é o fato de que normalmente existe certo arsenal de desculpas, ou seja, de “circunstâncias atenuantes”. Ficamos tão ansiosos em apresentá-las diante de Deus (e de nós mesmos) que somos capazes de esquecer a coisa mais importante, isto é, o que restou: o montante que as desculpas não são capazes de cobrir, o restinho que é indesculpável, mas, graças a Deus, não é imperdoável. Quando nos esquecemos disso, vamos embora achando que nos arrependemos e fomos perdoados, quando, na verdade, tudo que fizemos foi dar satisfações a nós mesmos com as nossas próprias desculpas. É possível até que sejam desculpas bem esfarrapadas; ficamos facilmente satisfeitos com nós mesmos.
C.S.Lewis

(Extraído do Devocionário “um ano com C.S.Lewis”, pag. 259)


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