Férias de quê? O desafio de desplugar-se


O mundo anda turbulento por diversas razões. Nós, agitados, só pelo embalo. O jeito de viver como sociedade se estabelece, e a pressão aumenta. Por que tanta correria? Onde está a pressão crescente? Alguns identificam facilmente, outros, nem tanto.
Gandhi já dizia que “a vida não se limita a ir cada vez mais rápido”, porém, ao nosso redor parece haver um culto à velocidade. Assimilamos o ritmo forte, angustiados por não ter tempo para fazermos o que gostaríamos.
Na era do conhecimento não saber é um problema. Nunca saberemos muito diante da enormidade de conhecimento disponível. Mas a combinação conhecimento e velocidade é perigosa. Não é difícil acumularmos algumas informações e cairmos na superficialidade. Hoje, você é pressionado a saber as manchetes do dia, o vídeo que “bombou” na internet durante a semana, a 36ª etapa da Operação Lava Jato, as últimas postagens dos youtubers mais famosos, a música que está “estourada”, o divórcio da celebridade etc. E, se algo escapa, a pergunta horrorizada é: “Mas você ainda não viu? Em que mundo você vive?”.
Na sociedade do espetáculo, imagem é tudo, e assim, cada dia mais você precisa cuidar melhor da sua. Então, você precisa saber e comentar sobre um pouco de tudo, como se fosse possível e ainda valesse muito; precisa estar com a aparência boa, com a dieta em dia e o corpo sarado. E compartilhar com o mundo um tanto de sua vida bem-sucedida, ou seja, as fotos do que você come, em que festa ou evento você se encontra, qual a viagem que faz, o look do dia, o livro que, em tese, você está lendo, e por aí vai. Conexão permanente. Você não pode desligar nunca. Afinal, verificando as notícias, os vídeos, as redes sociais, as curtidas, os comentários, você ainda deixa a desejar, imagine se você se desconectar por um pouco? A sensação para muitos é que a vida acaba, jamais irão se recuperar.
A autopercepção encontra-se comprometida pelo suposto fracasso de não dar conta de acompanhar tudo. Tanto nos é oferecido e tão pouco podemos: assim o lamento cresce, a frustração por achar-se desatualizado em algum aspecto se amplia e os desconfortos em termos de autoestima se tornam mais profundos. Pela fresta da vida podemos ver que em parte tem a ver com a ilusão da onipotência, a dificuldade em lidar com a falta, o desafio de colocar limites.
Quando se constatam cansaço e insatisfação, além do fim de ano que se aproxima, o que implica em mais euforia, encontros, comemorações e explicações, posts, fotos, poses etc, pensa-se em férias à vista, num breve horizonte.
Férias poderiam ser simplesmente um tempo onde agitados desaceleram, entram num outro ritmo onde é possível saborear o momento, afastar-se das pressões, relaxar, estar realmente presente no instante. Só que para boa parte das pessoas há um estranhamento com o ritmo mais lento, com o permitir-se não acessar as redes sociais a fim de sossegar. A possibilidade de desplugar-se e voltar-se mais para dentro, não ter a atenção tão dividida, não espremer-se com as expectativas dos outros pode ser um choque. A sensação de que tem muita coisa acontecendo e que você está perdendo, está ficando para trás, é tão maior para alguns que eles não conseguem relaxar, isso quando não levam trabalho para as férias ou mesmo durante o suposto período de descanso precisam permanecer de plantão. E ainda há aqueles que em nome da maximização da eficiência criam metas cruéis para as férias. Assim sendo, férias são quase mais do mesmo ritmo fora delas. Muda-se o ambiente externo, mas o interno é igual ao de sempre.
Gosto é da expressão do salmista quando vê o Eterno como seu pastor: “Em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranquilas; restaura-me o vigor” (Sl 23.2-3).
O corpo e a alma precisam de tempo, de repouso e um tanto de suavidade. Quantos de nós afirmaríamos que a vida encontra-se harmonizada? Por vezes precisamos nos afastar desse tempo onde as preocupações competem entre si para um outro espaço e tempo onde o que se encontra e desfruta são os pastos verdejantes, águas tranquilas e onde o vigor é restaurado. Para tanto é necessário que a alma encontre alimento fresco, os olhos contemplem beleza não como mero consumo, e a vivência do tempo seja outra, a ponto inclusive de influenciar o ritmo na volta.
Novos sons, sabores e cores, novo cardápio para o corpo e a alma. Boas verdadeiras férias!
Tais Machado

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