Velhinhos Gente Boa

Tenho observado os idosos à minha volta, com a perspectiva do “eu sou você amanhã”. E percebo que já apresentamos, hoje, sinais do que seremos quando nos faltarem forças para sermos gente boa, e sobrar apenas o que realmente somos.
Ao fazer essa avaliação, vejo grande vantagem nos velhinhos sorridentes, alegres, bondosos, de fácil trato, que gostam de gente, de criança, de parque, de viagens em cadeira de rodas, de empregados, de arrumadeiras, de fisioterapeutas, médicos, enfermeiras etc., enchem o peito com o ar da montanha dos balões de oxigênio e sentem carinho num banho de toalha. Velhinhos gente boa. Mesmo quando são maltratados e esquecidos, vivem melhor. E morrem melhor. Talvez porque tenham vivido melhor.
O problema, a meu ver, é como chegar a ser gente boa, de modo que, quando as forças faltarem, sejamos naturalmente assim. Será uma condição que se adquira? Que se aprenda? Que se cultive? Há alguma coisa que eu possa fazer, hoje, para ser um “velhinho gente boa” amanhã?
Em minhas observações, percebo que a maioria dos idosos alegres também são gratos. Sim, agradecem por tudo; e com aquele sorriso enternecedor. Hum, eis meu fio-de-meada: a gratidão traz contentamento; este puxa a alegria; e esta traz felicidade. O coração alegre e feliz atrai companhia; o ingrato afasta; o coração grato nos faz confortáveis no mundo; o ingrato nos faz vítimas dele; o coração grato constrói para si e para os outros; o ingrato é sabotador dos outros e até de si mesmo.
Passando da psicologia para a teologia, penso que não exista gratidão sem alguma consciência de graça. Graça, aqui, é a dádiva imerecida; o presente. Gratidão é o resultado misterioso, em nosso coração, do reconhecimento de que recebemos algo a que não tínhamos direito. Exemplo: se você pagou, não precisa agradecer. Veja como o apóstolo Paulo toca no assunto, ao dizer que Abraão foi justificado pela fé: Ora ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e, sim, como dívida (Rm 4:4). E a razão que apresenta para o cultivo de um coração grato: E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido? (1 Co 4:7).
De volta aos velhinhos, penso no poder formador (e conformador) da gratidão. Talvez seja por isso que Paulo insista conosco, em direção a Deus: Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco (1 Ts 5:18). Já em direção às pessoas ele recomenda: seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos (Cl 3:15). Que verso interessante! O apóstolo insere a gratidão como “ingrediente” de um convívio pacífico e harmônico no corpo de Cristo.
E como podemos cultivar, hoje, esse coração grato, de modo a que venhamos a ser gente boa quando as forças nos faltarem e só restar o que realmente somos? Deixando que a gratidão conforme nossa personalidade. Talvez, num primeiro momento, buscando perceber a graça que existe nas coisas que nos acontecem. Ao reconhecer que coisas boas não vieram de nós mesmos; ao perceber que muito pouco do que temos foi de alguma forma comprado ou pago; ao distinguirmos dádivas nas alegrias e também nas limitações e tristezas, começaremos a percorrer o caminho da gratidão; começaremos a desenvolver em nós uma crescente sensibilidade para “o que nos é dado”, gratuitamente. O resultado é que começaremos a agradecer. Desenvolveremos uma atitude agradecida.
Mas talvez ainda não seja gratidão. Acho que há um passo seguinte; o fenômeno misterioso, que simplesmente acontece em nosso coração: sentimo-nos alegremente gratos.
Claro, poderíamos nos sentir incomodados; revoltados por depender tanto dos outros ou de Deus para ter nossas necessidades satisfeitas. Sim, alguns prefeririam poder adquirir tudo o que precisam, de modo a não dever nada a ninguém. Muito menos a Deus. Certamente, alguns até tentam. (e tendo o conhecimento dele, não o reconhecem como Deus, nem lhe dão graças. Achando-se muito espertos, tornam-se loucos” — minha paráfrase de Rm 1:21,22). E, ao tentar, conscientemente ou não, permitem que atue em seus corações o poder formador da ingratidão. Serão velhinhos rabugentos. Morrerão sozinhos e pedindo para não serem incomodados. Achando que o mundo lhes deve muito, porque foram injustiçados pela vida.
Termino tentando propor (a mim mesmo) a ótica do ditado popular, que sugere “fazer de um limão uma limonada”. Ou seja, buscar dentro de si uma atitude, uma força capaz de transformar o azedo do limão, em algo doce e gostoso. O ditado não nos ensina como fazer isso. Também o popular não nos diz o “como” do ditado: “para bom entendedor, meia palavra basta”, ou sua versão mais divertida: “para bom entendedor til é acento”. Então, se não é preciso explicar a bons entendedores como fazer limonadas, aqui vão algumas frases para definir um coração grato. Sem muitas explicações. Quero chegar a ser velhinho, com um coração parecido. É por isso que estou pensando nisso hoje.

*      Para um coração grato, refeição é banquete;
*      para um coração grato, barraco é um lar;
*      para um coração grato, bicicleta é condução;
*      para um coração grato, sorriso é dia de sol;
*      para um coração grato, bolinho de chocolate é pétit-gâteau;
*      para um coração grato, cobertor “parahiba” é edredon;
*      para um coração grato, atenção é carinho;
*      para um coração grato, lembrancinha é consideração;
*      para um coração grato, barraco limpo é aconchegante;
*      para um coração grato, fogueira é lareira;
*      para um coração grato, desconto é presente;
*      para um coração grato, manhã de chuva é dia lindo;
*      para um coração grato, manhã de sol é nova vida;
*      para um coração grato, crítica é aula.

Bem — você pode estar pensando —, para alguém que perdeu o juízo, essas coisas fazem sentido. Mas não para uma pessoa normal.
De fato, não estou falando de pessoas normais; estou falando de gratidão; estou falando de um mistério da alma.
Rubem Amorese


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