Tu não mereces


Não é por causa da tua justiça
Deuteronômio 9:4-6: “Quando, pois, o Senhor, teu Deus, os tiver lançado de diante de ti, não digas no teu coração: Por causa da minha justiça é que o Senhor me trouxe a esta terra para a possuir, porque, pela maldade destas gerações, é que o Senhor as lança de diante de ti. Não é por causa da tua justiça, nem pela retitude do teu coração que entras a possuir a sua terra, mas pela maldade destas nações o Senhor, teu Deus, as lança de diante de ti; e para confirmar a palavra que o Senhor, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó. Sabe, pois, que não é por causa da tua justiça que o Senhor, teu Deus, te dá esta boa terra para possuí-la, pois tu és povo de dura cerviz.”
Houve momentos na história do povo de Deus em que a ingratidão assumiu uma forma agressiva. Eu a chamaria de "ingratidão ativa". Falo de soberba, de orgulho.
Nesse estágio da "autonomia humana", perde-se qualquer ligação com os fatos da vida, para criar-se uma narrativa alternativa, que favoreça a quem dela se utiliza. É com essa narrativa que o tolo se convence de que é belo, melhor, superior. Esse ambiente mental produz, para ele, um espelho mágico, no qual ele se vê como gostaria de ser. E a estultícia acaba por levá-lo a tentar viver nessa realidade alternativa, a despeito dos fortes sinais emitidos pela vida, de que as coisas não são bem assim.
Mas, se a promoção não vem, é porque há muita inveja na empresa. Se os aplausos não explodem é porque esse povo não sabe nada de arte. Se não sou eleito é porque essas pessoas ainda não perceberam a "solução" que represento.
Em Deuteronômio 9, presenciamos um momento assim, de tola soberba. Ao entrar na terra prometida, o povo começou a pensar que se tinha saído muito bem; que eram ótimos guerreiros e estrategistas; que mereciam as vitórias obtidas. E isso soa tão agressivo aos ouvidos de Moisés que ele faz um doído desabafo, dizendo que não; que eram povo de dura cerviz; que não estavam ali por mérito deles, mas por causa da promessa que Deus fizera a seus pais Abraão, Isaque e Jacó: "Não digas no teu coração: Por causa da minha justiça é que o Senhor me trouxe a esta terra para a possuir". Nem digas que foi pela retitude do teu coração, mas para confirmar a palavra que o Senhor, teu Deus, jurou a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó.
“Não devo nada a ninguém”
Se a gratidão envolve grande sensibilidade para com as graças recebidas, a ingratidão — de forma pura, do tipo: "não devo nada a ninguém", ou travestida de orgulho, que diz: "eu sou bom, mesmo" —, usa de subterfúgios para esconder ou esquecer essas dádivas. É assim que escritores que "se esquecem" das citações de rodapé para passar, tolamente, a ideia de que todo o pensamento apresentado emergiu de sua mente privilegiada. Com efeito, a gratidão de pronto reconhece a ajuda recebida; a ingratidão apressa-se em esquecê-la — até à próxima necessidade, quando retornará ao seu benfeitor, esquecido, agora, de que foi ingrato.
Penso que não se deva desconsiderar inteiramente o mérito, no âmbito das nossas relações com Deus. Eis um tema espinhoso, mas necessário, por causa da confusão que se instalou, a partir do ensino sobre a graça. Se caminhamos na direção de um extremo, acabamos em companhia do diabo, que sugere, por meio da mídia: "afinal, você merece". E essa vaidade, que é orgulho, termina por contaminar as fontes da gratidão, e terminamos como o povo de Israel, na passagem comentada: ridículos. Mas se caminharmos na direção do outro extremo, perdemos de vista a possibilidade de ouvirmos do Senhor: "bem está, servo bom e fiel; foste fiel no pouco; sobre muito te colocarei".
Como harmonizar, então, os dois lados? Talvez, com C.S. Lewis, cultivar o "bom orgulho": os incentivos inerentes ao reconhecimento, da parte do Senhor, dos nossos esforços, da nossa luta, da nossa fidelidade. Sabendo que, se, por um lado não somos marionetes de Deus, e lhe aprazem as nossas virtudes, por outro, encontra-se entre essas virtudes a humildade que diz: "tudo vem de ti, e das tuas mãos to damos" (1 Cr 29,14).
Rubem Amorese

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